Quando falamos de destralhe, pensamos normalmente em coisas. Roupa que já não usamos. Objetos esquecidos numa gaveta. Papéis acumulados. Ficheiros no computador. Emails que ficaram anos à espera de uma decisão.
Mas há outro tipo de acumulação que não ocupa espaço nos armários e que, ainda assim, pode consumir uma quantidade enorme dos nossos recursos. Pensamentos, preocupações, mágoas, antecipações, conflitos, exigências, tentativas de controlar aquilo que não depende de nós…
E se também pudéssemos olhar para tudo isto sob a perspetiva do destralhe?
Os nossos recursos também são limitados
A reflexão desta Terça Minimalista chega através do livro Gestão da Emoção, de Augusto Cury, e parte de uma ideia muito simples: não temos recursos psíquicos ilimitados.
Ao longo do dia, distribuímos a nossa atenção e energia por uma quantidade enorme de coisas. Algumas são necessárias. Outras são importantes. Mas há também aquelas às quais continuamos a entregar recursos sem que isso nos leve a lado nenhum.
Podemos passar horas a imaginar uma conversa que ainda não aconteceu. A rever mentalmente uma situação que já terminou. A tentar perceber porque é que alguém fez determinada coisa. A preocupar-nos com aquilo que os outros pensarão de nós. Ou a tentar encontrar uma forma de controlar algo que, na realidade, nunca esteve nas nossas mãos.
Tudo isto ocupa espaço.
Quanto te está a custar este pensamento?
Talvez possamos começar a aplicar às nossas preocupações algumas das perguntas que fazemos quando estamos a destralhar uma casa.
- Isto ainda me serve?
- Preciso de continuar a carregar isto?
- Há alguma coisa que eu possa fazer em relação a esta situação?
- Estou a pensar para encontrar uma solução ou estou apenas a repetir o mesmo pensamento?
Naturalmente, não podemos pegar num pensamento que nos incomoda e colocá-lo simplesmente no caixote da reciclagem. Seria muito conveniente. 😄
Mas podemos começar por perceber quanto dos nossos recursos estamos a entregar-lhe. E, acima de tudo, distinguir aquilo sobre o que podemos agir daquilo que estamos apenas a tentar controlar mentalmente.
Preocuparmo-nos não é o mesmo que resolver
Pensar sobre um problema pode ser útil quando esse pensamento nos ajuda a compreender, decidir, planear ou agir. Mas nem todo o pensamento tem essa função.
Às vezes estamos simplesmente a percorrer vezes sem conta o mesmo caminho. E quanto mais o percorremos, mais familiar ele se torna.
É aqui que a ideia de poupança ganha outro significado.
Não estamos a poupar dinheiro. Estamos a poupar atenção, tempo e disponibilidade emocional para aquilo que realmente precisa deles.
Talvez possamos escolher não gastar uma parte tão grande da nossa energia numa discussão que já terminou, numa possibilidade que ainda não aconteceu ou na tentativa de mudar alguém que não podemos mudar.
Um destralhe invisível
Destralhar a casa permite-nos ver imediatamente o resultado. Há espaço na gaveta. A secretária fica livre. Eventualmente, sai um saco porta fora.
No destralhe mental, o resultado é menos visível. Mas podemos começar por observar aquilo que repetidamente reclama a nossa atenção sem produzir qualquer mudança.
Não se trata de evitar emoções desagradáveis, ignorar problemas ou obrigarmo-nos a pensar positivo, mas de aprender a reconhecer onde estamos a investir os nossos recursos e perguntar: é aqui que quero continuar a gastar a minha energia?
Talvez algumas coisas precisem de uma ação. Outras de uma decisão. Outras ainda de tempo para serem elaboradas. E algumas talvez precisem simplesmente de começar a ser largadas.
No vídeo desta Terça Minimalista proponho precisamente esta reflexão: olhar para os nossos recursos psíquicos e para o gasto de energia emocional através da mesma lente com que temos vindo a olhar para o destralhe e para a simplificação da vida.
Porque talvez possamos destralhar muito mais do que coisas.
E há espaço que só conseguimos recuperar cá dentro.
Esta reflexão vem pela mão de Augusto Cury, através do livro Gestão da Emoção. Leitura que recomendo.
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