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Sobre momentos de solidão

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Há quanto tempo não estás simplesmente sem fazer nada? Sem televisão. Sem música. Sem pegar no telemóvel. Sem aproveitar aqueles dois minutos para verificar o email, as redes sociais ou ver mais um vídeo.

A reflexão desta semana chega novamente através de Elaine St. James e do livro Simplifique a Sua Vida, e fala-nos sobre algo que talvez seja ainda mais necessário hoje do que quando o livro foi publicado: aprender a estar só e em sossego.

Precisamos mesmo de preencher todos os momentos?

Elaine dirige esta reflexão sobretudo aos pais e fala da importância de ensinar as crianças a terem momentos de solidão, afastadas durante algum tempo do ruído e dos estímulos constantes.

Os exemplos que utiliza denunciam naturalmente a época em que o livro foi escrito.

Hoje provavelmente acrescentaríamos à lista os telemóveis, redes sociais, notificações, vídeos curtos, plataformas de streaming, jogos online e toda uma quantidade de conteúdos que podemos ter connosco 24 horas por dia, dentro do bolso.

E talvez isso tenha tornado ainda mais difícil uma coisa aparentemente tão simples: não fazer nada durante alguns minutos.

Estamos numa fila? Pegamos no telemóvel.

Há um intervalo na televisão? Pegamos no telemóvel.

Esperamos por alguém? Telemóvel.

Vamos à casa de banho? Bem… provavelmente o telemóvel também vem. 😄

A questão não é o telemóvel em si.

É percebermos se ainda conseguimos escolher não preencher imediatamente cada pequeno espaço vazio.

Estar só não é o mesmo que sentir-se sozinho

Há uma diferença importante entre isolamento e momentos voluntários de solitude.

Podemos gostar de estar com outras pessoas, ter relações significativas e, simultaneamente, precisar de momentos em que estamos apenas connosco. Sem alguém com quem conversar. Sem alguma coisa para ver. Sem necessidade de produzir, responder ou consumir informação.

É nesse espaço que podemos reparar naquilo que estamos a sentir, deixar os pensamentos vaguearem, observar aquilo que nos rodeia ou simplesmente dar algum descanso à constante procura de estímulo.

E esta é uma capacidade que também podemos ajudar as crianças a desenvolver.

Uma criança não precisa de estar constantemente entretida

Talvez tenhamos adquirido a ideia de que é necessário proporcionar permanentemente alguma coisa para uma criança fazer.

Mas uma criança deixada durante algum tempo com espaço para si mesma encontra sempre com o que se entreter. Uma pedra pode transformar-se em qualquer coisa. Uns paus tornam-se uma construção. Uma caixa vazia ganha uma utilização que provavelmente nunca nos teria ocorrido.

Há formigas para observar, coisas para inventar, histórias para imaginar. E há também o aborrecimento. Que talvez não seja uma coisa da qual precisemos de salvar imediatamente uma criança.

O brincar livre e não estruturado também lhes deixa espaço para explorar, imaginar e encontrar as suas próprias formas de se ocupar.

Aprender que não precisamos de estar constantemente entretidos pode ser uma ferramenta importante para levarmos connosco para a vida adulta.

E nós, adultos?

Naturalmente, esta reflexão não serve apenas para quem tem filhos. Também podemos reaprender esta capacidade aos 20, 40, 60 ou 80 anos.

Podemos fazer uma caminhada sem auscultadores. Sentarmo-nos alguns minutos no jardim. Observar o pôr do sol. Beber um café sem pegar no telemóvel.

Ou simplesmente ficar em silêncio.

E talvez descubramos que isso nem sempre é confortável.

Quando retiramos o ruído exterior, ficamos um pouco mais disponíveis para ouvir aquilo que se passa cá dentro. E por vezes é precisamente isso que temos vindo a evitar.

Não precisamos de transformar estes momentos numa prática complicada, nem sequer de lhes chamar meditação. Podemos começar simplesmente por não ocupar todos os espaços vazios.

Porque talvez simplificar não seja apenas retirar coisas dos armários.

Às vezes também é retirar algum do ruído com que preenchemos cada minuto da nossa vida.

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