Por aqui, o destralhe continua.
E continua porque, para mim, destralhar nunca foi uma coisa que se faz uma vez, se dá por terminada e pronto. A nossa vida muda, as nossas necessidades mudam e aquilo que faz sentido manter também vai mudando.
Neste episódio da Hora do Chá, partilho alguns dos últimos destralhes que fiz por aqui e converso um bocadinho sobre aquilo que este processo representa para mim.
Porque destralhar não é apenas retirar coisas. É também abrir espaço para construir uma vida mais simples e com mais sentido.
Vamos conversar?
Elo após elo
No final do vídeo partilho uma imagem que, para mim, representa muito bem este processo: uma máquina a construir uma corrente, elo após elo.
Gosto desta imagem porque destralhar também se faz assim.
Não precisamos de transformar a casa inteira num fim de semana, nem de tomar todas as decisões de uma vez. Uma gaveta hoje, algumas peças de roupa amanhã, um objeto que finalmente percebemos que já não faz sentido manter. Pequenas decisões, pequenos destralhes, pequenos passos.
Isoladamente podem parecer quase insignificantes. Mas, tal como os elos de uma corrente, vão-se ligando uns aos outros e acabam por construir qualquer coisa maior.
E talvez seja essa a aparente contradição do destralhe: estamos a retirar coisas, mas estamos também a construir.
A construir uma casa mais simples de manter, um espaço com mais sentido, uma vida menos preenchida pelo que acumulámos e mais preenchida pelo que realmente importa.
Quando ter mais não preenche
Há ainda outra imagem no final do vídeo que me continua a fazer pensar.
Um frigorífico cheio e alguém que diz “não tenho nada para comer”. Uma estante cheia: “não tenho nada para ler”. Um armário cheio: “não tenho nada para vestir”. Uma infinidade de coisas para ver e, ainda assim: “não tenho nada para ver”.
E, no final, a ideia: às vezes, o vazio vem de dentro.
Talvez esta seja uma das reflexões mais importantes quando falamos de destralhe.
Podemos rodear-nos de coisas, continuar a comprar, guardar aquilo de que já não precisamos e procurar sempre mais qualquer coisa que nos faça sentir melhor. Mas há vazios que não se preenchem com coisas.
E talvez destralhar também nos confronte um pouco com isso.
Quando começamos a retirar o excesso, ficamos mais disponíveis para perceber aquilo que estava escondido por baixo dele: o que usamos, o que valorizamos, aquilo de que realmente precisamos — e também aquilo que procurávamos encontrar nas coisas e que, afinal, talvez nunca pudesse estar nelas.
Continuar a destralhar
Por isso continuo a destralhar. Não numa procura interminável por ter cada vez menos, mas porque quero continuar a escolher aquilo que faz sentido manter.
Elo após elo. Decisão após decisão.
Construindo, curiosamente através daquilo que vou deixando ir, uma vida mais simples e com mais sentido.
E contigo? Quando destralhas, sentes que estás apenas a retirar coisas ou também que estás a construir alguma coisa?



